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A Aceleração das Mudanças Globais

Fernando Jorge Cardoso
Diretor executivo do Clube de Lisboa

A aceleração das mudanças globais está a afetar cada vez mais o ambiente e os nossos modos de vida, com o futuro a entrar rapidamente no presente, forçando pessoas, sociedades e sistemas políticos a enfrentarem novas realidades, algumas das quais difíceis de compreender, de reconhecer e de gerir – como é o caso da corrente pandemia e das suas implicações transversais.

Sem dúvida que a mais preocupante é degradação do clima e da sustentabilidade dos ecossistemas que representa um desafio existencial, mas a aceleração das mudanças acontece paralelamente em outras esferas que afetam a nossa vida, desde a revolução digital e a tão propalada transição energética (com efeitos marginais sobre o consumo de energias fósseis, que se mantém desde há mais de 50 anos superior a 80%), até à velocidade com que a urbanização e os movimentos demográficos se verificam.

Numa outra vertente, o próprio modelo de crescimento global está a mudar de natureza, dado que, não deixando de ser de produção e consumo de massas, com a crescente sofisticação e generalização dos sistemas de vigilância e dos algoritmos, as pessoas substituíram as coisas como mercadorias principais, através da leitura e manipulação do nosso comportamento para fins comerciais (e políticos).

Perante este cenário, não obstante as disrupções e alterações causadas à vida em sociedade pela atual pandemia e não obstante as prioridades de combate ao vírus e às suas consequências económicas e sociais, há um conjunto de tendências geopolíticas e geoeconómicas, que se têm vindo a impor e reforçar nos últimos anos.

Na verdade, será porventura mais seguro afirmar que o combate ao Covid 19 acabará por ser ganho, a prazo e com custos altos sem dúvida, do que esperar uma inversão ou fim de algumas das tendências globais que vinham já a decorrer. Elas estão a ser e serão afetadas pela pandemia, mas não anuladas.

Uma primeira tendência, hoje bem evidente, é a da competição entre os EUA e a China, pelo predomínio de mercados e tecnologias, que veio para ficar e intensificar-se, embora, esperemos, sem o recurso a uma confrontação por via armada, dado serem potências nucleares.

Na verdade, medindo a competição pelo número de patentes tecnológicas registadas, a China igualou e começa a ultrapassar os EUA em números globais, liderando já nalguns domínios de tecnologia de ponta, designadamente no da quantidade e velocidade de tratamento de dados e na respetiva transmissão e amplitude (o designado 5G).

A competição não é só económica, ela envolve a interferência e ameaça direta ou indireta a outros estados, incluindo sobre países até agora considerados amigos – está aí o caso da Huawei para o demonstrar e das pressões norte-americanas sobre países europeus para evitarem a escolha desta empresa, alegadamente tributária de interesses do regime chinês.

E esta realidade é de ordem estrutural, ou seja, não serão os resultados das próximas eleições nos EUA a alterá-la – mesmo que corra, eventualmente, alguma mudança de tom e de procedimentos, a competição está para ficar, dada a sua índole estratégica.

Outra tendência que se reforçou e vai previsivelmente continuar é a do crescimento de posições nacionalistas e protecionistas, que não têm somente a ver com o crescimento do populismo (que faz disso bandeira).

Existe na verdade um desconforto em variados extratos populacionais contra os “excessos da globalização”, mais concretamente contra os efeitos (mais visíveis nos países que até finais do século passado lideravam a industrialização e as inovações tecnológicas) provocados pela deslocalização de cadeias de produção e emprego principalmente para a Ásia, particularmente para a China, bem como contra a perda do poder de compra e de estatuto das classes médias nos países industrializados. Interessantemente, hoje em dia, a luta contra as desigualdades não é mais um monopólio das esquerdas ou de movimentos sociais e de cariz religioso, ela tornou-se um forte argumento utilizado por movimentos populistas e nacionalistas em paralelo com os da imigração, apresentada como uma ameaça a empregos e modos de vida.

Uma terceira tendência é a do abandono do sistema multilateral e sua substituição por um sistema multipolar (não obstante ambos poderem coexistir).

As iniciativas de criação de zonas de influência regional são evidentes, com vários países a tentarem, de forma mais ou menos aberta, recuperar posições de poder que historicamente tinham já assumido ou que querem experimentar.

Na Ásia, a China é um caso óbvio, independentemente do seu discurso formal de cooperação económica entre iguais, mas podemos assistir a um forte debate interno no Japão sobre a remilitarização do país, em paralelo com a intenção proclamada de países em se assumirem como líderes regionais no Pacífico ou no Índico, como a India, o Paquistão, a Malásia e mesmo a Austrália e, mais a sudoeste, as intenções da Turquia são óbvias, a par das do Irão e da Arábia Saudita.

Nas Américas, o México e o Brasil, apesar de contendores ou opositores regionais, posicionam-se igualmente como poderes regionais num novo mundo multipolar. Na África, os casos do Egito a norte, da Etiópia a leste, da Nigéria a oeste e da África do Sul (mais tíbia em se afirmar como líder regional, apesar evidente predomínio económico) são igualmente evidentes.

Na Europa, a União Europeia é hoje o espaço mais resiliente de defesa do multilateralismo e é credível que consiga manter a sua unidade, apesar do aumento de tensões políticas internas e entre países membros, fruto dos ganhos consolidados com o processo de integração – desde que as posições pró-multilaterais da Alemanha e da França se mantenham ao longo da próxima década. Nesse sentido, a UE (e num outro patamar as Nações Unidas) é a voz que poderá concitar o apoio de um conjunto grande de países em África, na Ásia e na América Latina e Caraíbas em defesa de uma ordem multilateral, em oposição a uma multipolar. Na verdade, ambos já coexistem, sem vencedor certo- nesse sentido o resultado das próximas eleições nos EUA serão porventura um fator determinante.

Uma quarta tendência é a do aumento das desigualdades, não só e nem tanto regionais, mas mais intrarregionais e intranacionais.

Os números são evidentes. A concentração de riqueza, por um lado em resultado da facilidade de criação de produtos especulativos e da opacidade das transações financeiras e, por outro lado, pelos avanços e inovações no domínio das tecnologias digitais, originou não só o aparecimento de novas empresas líderes nos mercados e nas bolsas, mas também o afunilamento da riqueza numa percentagem cada vez menor de multimilionários, a par da desvalorização de profissões outrora consideradas de elevado valor e da generalização de práticas de emprego de trabalho precário e mal pago, mesmo quando especializado.

Esta tendência está a ter custos políticos óbvios. Não é por acaso que, apesar da enorme quantidade de liquidez despejada nas instituições financeiras pelos bancos centrais desde 2008, as taxas de juro se mantêm perto de zero. Ou seja, por um lado o dinheiro acaba por ser consumido em operações especulativas, de lucro mais fácil e rápido, em vez de criar mais emprego estável e, por outro lado, as lideranças políticas e económicas têm receio de apoiar ou promover a subida das taxas de juro de referência, pelos impactos sociais previsíveis causados pelo elevado nível de endividamento privado – a possibilidade de protestos violentos e de derrube de governos, nas urnas ou nas ruas, acaba por ser percepcionada como mais curial que hipotéticas vantagens de inflações controladas, supostamente amigas do investimento produtivo.

E o que dizer dos propagandeados benefícios da globalização que, na primeira década deste século teria levado ao fim da pobreza absoluta em diversos países (leia-se principalmente na China) e aumentado o peso das classes médias em países mais pobres, entre os quais a maioria dos países da África subsaariana? Convém lembrar que o principal obreiro do financiamento e investimento em infraestruturas na Ásia, América Latina e África foi e ainda é a China, com resultados consideráveis e bem visíveis – não obstante o crescimento das dívidas externas dos beneficiários. Importa, ainda, salientar que os progressos económicos reais conseguidos em muitos países pobres só serão sustentáveis com uma transformação das respetivas estruturas económica, que privilegie o investimento em obras de infraestrutura – redes de transporte, energia, comunicações -, a expansão de indústrias de transformação de produtos primários, principalmente agrários, e a industrialização de substituição de importações e de promoção de exportações, à semelhança do que ocorreu em duas diferentes vagas nos anos 1980 e 1990 no sudeste asiático.

Porém, quem pode ser o fautor de tais mudanças e investimentos? O capital privado, nacional e externo, só o será se os Estados funcionarem como suporte, e exista acordo e apoio dos credores e entidades financeiras externas, se existir a liberdade de transferências monetárias, se as taxas de inflação não desviarem dinheiro para operações especulativas em vez de produtivas e se os mercados internos ou regionais tiverem ou ganharem dimensão para absorver a produção realizada. São muitos “se” num mundo onde as intenções conflituam amiúde com as realidades – e os relógios n para trás, modelos exitosos num passado recente aconteceram em circunstâncias bem diversas.

 

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